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quarta-feira, 20 de março de 2013

Um braço arrancado é mais do que apenas um braço arrancado

São Paulo é uma não-cidade.
Não pelo atropelamento na avenida Paulista de um jovem, morador do Jardim Pantanal, bairro pobre do extremo Leste da capital, que costumava ir para o trabalho de bicicleta.
Não por outro jovem que saiu de uma balada no Itaim Bibi, bairro rico da cidade, dirigindo seu carro bonito, após ter ingerido álcool, na madrugada.
Não por uma alegação de que houve fuga sem que fosse prestado socorro por medo de linchamento.
Não pelo motorista ter arrancado o braço do ciclista na batida e, ao descobrir o membro em seu automóvel quilômetros depois, tê-lo arremessado em um córrego fétido ao invés de devolver para um reimplante.
Não, por nada disso.
Pois li e reli todas as notícias produzidas sobre o caso e percebi, de forma melancólica, que essa sequência de fatos bizarros, sem razão nenhuma de ser, fazem muito sentido para mim, que sou morador da maior cidade do país. De uma forma ou de outra, já ouvi essa história antes, com pequenas variações e tenho certeza que meus colegas a relataram outras tantas, com outros nomes. Às vezes é um braço que se vai preso a um carro, às vezes é uma vida inteira lançada ao esgoto.
Mas isso não deve fazer sentido para milhões de outras pessoas, moradoras de milhares de outras cidades no país. Não, não estou dizendo que São Paulo é mais violenta. Mas em São Paulo, apesar da indignação, o surreal e o insano fazem todo o sentido. Nós os banalizamos.
E ajudamos a construir uma cidade, que não faz sentido, por nossa ação ou omissão.
Podemos tentar fazer diferente?
Num passe de mágica, o braço emergiu do córrego e voou para as mãos de Alex, que entrou em seu carro e, rapidamente, chegou à avenida Paulista onde David o esperava deitado no chão. Ao chegar, o braço retornou de pronto ao seu lugar e a bicicleta prateada se desamassou. Alex voltou para o carro a tempo de chegar antes do fim da balada. Passou uma noite alegre, bebendo com os amigos. Quando o barman deixou cair o copo no chão, fazendo com que o tempo voltasse a correr para frente, chegou para um camarada e pediu para colocá-lo num táxi. Em casa, caiu em sono profundo, como há muito tempo não fazia, e sonhou com o futuro.
Queria que as coisas fossem tão fáceis quanto uma inversão de texto.
E que a responsabilidade pelo acontecido, no fundo, fosse só dele.
“Meu filho disse que, mesmo sem o braço, tem a impressão de que ainda pode mexê-lo.”
E que essa história saísse da minha cabeça e me deixasse dormir.



Fonte: uol.com.br - Blog do Sakamoto
Colaboração: Bete - 3º ano de Publicidade

segunda-feira, 18 de março de 2013

O cérebro pós-moderno: como as redes sociais nos transformam



A internet não mudou somente a forma como as pessoas produzem, criam, se comunicam e se divertem. De acordo com o neurocientista Gary Small, diretor do Centro de Pesquisa em Memória e Envelhecimento da Universidade da Califórnia (UCLA), ela altera o funcionamento do cérebro.
“Sob certo aspecto, essa revolução digital nos mergulhou em um estado contínuo de atenção parcial. Estamos permanentemente ocupados, acompanhando tudo. Não nos focamos em nada. (…) As pessoas passam a existir num ritmo de crise constante, em alerta permanente, sedentas de um novo contato ou um novo bit de informação”. Gary Small.
Essa sede por novidades, por consumir toda a informação disponível, é o que ocorre com as redes de relacionamento, segundo a pesquisa do Doutor Small. Ao nos acostumarmos à essa excitação, procuramos estar constantemente conectados. “As redes sociais são particularmente sedutoras. Elas nos permitem constantemente satisfazer nosso desejo humano por companhia e interação social”.
Um estudo que está sendo realizado na Universidade da Califórnia começou a desvendar o efeito que as redes sociais produzem no organismo. Os resultados mostraram que twittar, por exemplo, estimula a liberação de níveis de ocitocina e, consequentemente, diminui os níveis de hormônios como cortisol e ACTH, associados ao estresse. Ou seja, isso significa que o cérebro pode ter desenvolvido uma nova maneira de interpretar as conversas no Twitter. E, de acordo comPaul Zack, esta nova maneira é a seguinte: “o cérebro entende a conexão eletrônica como se fosse um contato presencial”, o que pode justificar a mudança que as redes sociais causaram na forma como nos relacionamos e fazemos amizades.
E como isso se relaciona com nosso vício de checar a todo instante o Facebook? É possível que estas interações online dêem às pessoas o mesmo sentimento e sensação que elas teriam ao encontrar seus amigos cara-a-cara. Se esta hipótese, levantada nos estudos de Paul Zack, se confirmar, temos algumas implicações para as empresas que atuam em mídias sociais. http://c.gigcount.com/wildfire/IMP/CXNID=2000002.0NXC/bT*xJmx*PTEyOTg*NzQ5NDY1MzEmcHQ9MTI5ODQ3NDk1Mjc2NSZwPTEwMjExMjImZD*mZz*yJm89ODMzOGQ5MjMxZjVmNDljNDkw/YWE1OTQ4MDg1YzA2NzAmb2Y9MA==.gif
Empresas como Zappos, Nike, Starbucks e outras com grandes cases de ações inovadoras nas redes sociais (que você pode conferir nestes posts), que efetivamente se conectam com seus consumidores online, estarão no topo devido ao que estão construindo: fazendo os consumidores se sentirem como grandes amigos.
Os resultados de pesquisas de neurociência relacionadas às redes sociais, enfim, devem ser tratados como uma ferramenta muito importante para as empresas que querem construir um verdadeiro relacionamento com seus consumidores online.
Photographs by Bryce Duffy

Fonte: http://www.gilgiardelli.com.br

quinta-feira, 25 de outubro de 2012



Karl Marx
05/05/1818, Trier (Alemanha)
14/03/1883, Londres (Inglaterra)


Teórico do socialismo, Karl Marx estudou direito nas universidades de Bonn e Berlim, mas sempre demonstrou mais interesse pela história e pela filosofia. Quando tinha 24 anos, começou a trabalhar como jornalista em Colônia, assinando artigos social-democratas que provocaram uma grande irritação nas autoridades do país.
Integrante de um grupo de jovens que tinham afinidade com a teoria pregada por Hegel (Georg Wilhelm Friedrich - um dos mais importantes e influentes filósofos alemães do século 19), 
Marx começou a ter mais familiaridade dos problemas econômicos que afetavam as nações quando trabalhava como jornalista.
Após o casamento com uma amiga de infância (Jenny von Westphalen), foi morar em Paris, onde lançou os "Anais Franco-Alemães", órgão principal dos hegelianos de esquerda. Foi em Paris que 
Marx conheceu Friedrich Engels, com o qual manteve amizade por toda a vida.
Na capital francesa, a produção de 
Marx tomou um grande impulso. Nesta época, redigiu "Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel". Depois, contra os adeptos da teoria hegeliana, escreveu, com Engels, "A Sagrada Família", "Ideologia alemã" (texto publicado após a sua morte).
Depois de Paris, 
Marx morou em Bruxelas. Na capital da Bélgica, o economista intensificou os contatos com operários e participou de organizações clandestinas. Em 1848, Marx e Engels publicaram o "Manifesto do Partido Comunista", o primeiro esboço da teoria revolucionária que, anos mais tarde, seria denominada marxista.
Neste trabalho, 
Marx e Engels apresentam os fundamentos de um movimento de luta contra o capitalismo e defendem a construção de uma sociedade sem classe e sem Estado. No mesmo ano, foi expulso da Bélgica e voltou a morar em Colônia, onde lançou a "Nova Gazeta Renana", jornal onde escreveu muitos artigos favoráveis aos operários.
Expulso da Alemanha, foi morar refugiado em Londres, onde viveu na miséria. Foi na capital inglesa que Karl 
Marx intensificou os seus estudos de economia e de história e passou a escrever artigos para jornais dos Estados Unidos sobre política exterior.
Em 1864, foi co-fundador da "Associação Internacional dos Operários", que mais tarde receberia o nome de 1ª Internacional. Três anos mais tarde, publica o primeiro volume de sua obra-prima, "O Capital".
Depois, enquanto continuava trabalhando no livro que o tornaria conhecido em todo o mundo, Karl 
Marx participou ativamente da definição dos programas de partidos operários alemães. O segundo e o terceiro volumes do livro foram publicados por seu amigo Engels em 1885 e 1894.
Desiludido com as mortes de sua mulher (1881) e de sua filha Jenny (1883), Karl 
Marx morreu no dia 14 de março de 1883. Foi então que Engels reuniu toda a documentação deixada por Marx para atualizar "O Capital".
Embora praticamente ignorado pelos estudiosos acadêmicos de sua época, Karl Marx é um dos pensadores que mais influenciaram a história da humanidade. O conjunto de suas idéias sociais, econômicas e políticas transformou as nações e criou blocos hegemônicos. Muitas de suas previsões ruíram com o tempo, mas o pensamento de Marx exerceu enorme influência sobre a história.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Filosofia Contemporânea




A filosofia contemporânea pode ser vista como resultado da crise do pensamento moderno no século XIX. O questionamento ao projeto moderno se faz nos termos de um ataque à centralidade atribuída à noção de subjetividade nas tentativas de fundamentação do conhecimento empreendidas pelas teorias racionalistas e empiristas. A linguagem surge então como alternativa de explicação de nossa relação com a realidade enquanto relação de significação. A questão sobre a natureza da linguagem, sobre como a linguagem fala do real, torna-se um problema central na filosofia e em outras áreas do saber na passagem do século XIX para o século XX.
Os variados ramos da filosofia surgidos nessa época são a psicologia freudiana, a sociologia, a antropologia, a filosofia analítica, o existencialismo e a linguística estrutural. Essas abordagens têm em comum o interesse pelo significado. Em que consiste? O que o torna possível? Como funciona?
Alguns sentiram que estudar os impulsos psicológicos era a melhor maneira de explicar como funciona o significado. Para outros, era estudar a sociedade, a cultura, a linguagem, a lógica ou a consciência. Várias abordagens diferentes começam a desenvolver seus termos e técnicas para investigar o significado.
A simples existência dessas vertentes, muitas vezes profundamente divergentes entre si, e nem sempre tendo raízes comuns, revela a centralidade do interesse pela questão da linguagem no pensamento contemporâneo. A análise da linguagem torna-se assim o caminho para o tratamento não só de questões filosóficas, mas de questões dos vários campos das ciências humanas e naturais no pensamento contemporâneo.
  Quando falamos em crise da modernidade, podemos apontar três grandes rupturas que transformaram profundamente as nossas maneira de conceber o homem e o conhecimento:
- A revolução copernicana: ao retirar a Terra do centro do universo, Copérnico abala as crenças tradicionais do homem da época que passa a buscar um novo lugar seguro para superar a alteração da explicação tradicional;
- A revolução darwiniana: abala profundamente a crença na superioridade humana, no homem como o “rei da criação”, na medida em que revela o homem é apenas mais uma espécie natural dentre outras e que a espécie humana resulta de um processo de evolução natural, tendo ancestrais comuns com o macaco, portanto, não mais uma criação divina – o “rei da criação”.
- A revolução freudiana: a teoria psicanalítica de Sigmund Freud e sua descoberta do inconsciente – o homem não se define pela sua racionalidade, e sua mente não se caracteriza apenas pela consciência, mas ao contrário, nosso comportamento é fortemente determinado por desejos e impulsos de que não temos consciência e que reprimidos, não-realizados, permanecem entretanto em nosso inconsciente e manifestam-se em nossos sonhos e em nosso modo de agir.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Teste para saber se você está morrendo

GILBERTO DIMENSTEIN

Teste para saber se você está morrendo

Ter contato humano em torno de uma novidade gera um sentimento de utilidade e, portanto, de juventude
AO INVESTIGAR A ATITUDE de idosos diante da internet, o Datafolha captou uma relação entre o gosto de aprender de idosos e a saúde. Manter a curiosidade, portanto, é percebido como um remédio para o corpo e a mente.
Os entrevistados, todos acima de 60 anos, foram indagados sobre o que sentiam ao fazerem qualquer curso. Algumas das principais respostas: "aumenta a vontade de viver", "faz bem para o corpo", "ajuda a controlar a mente e as emoções". A pesquisa integra a apresentação de uma experiência desenvolvida há nove anos em que idosos aprendem a navegar na internet, ajudados por adolescentes.
Em resumo, evitar o isolamento e ter contato humano em torno de uma novidade -do tricô à internet, passando por idiomas ou pintura- gera um sentimento de utilidade e, portanto, de juventude.
A sensação produzida pelo aprendizado, traduzida nas respostas dadas ao Datafolha, delimita as fronteiras da vida útil: morrer é, em essência, perder a curiosidade e parar de aprender. Se os educadores tivessem clareza dessa noção de morte, não ensinaríamos às crianças apenas a visão pragmática de que se aprende para viver -e não a de que se vive para aprender.


Educam-se as crianças e os jovens para o futuro. Esse é o sentido da pergunta, tão repetida, "o-que-você-vai-ser-quando-crescer?". Os alunos são preparados para fazer provas, passar de ano, passar no vestibular, ter uma profissão e, depois, se reciclarem para manter o emprego.
Encerrada a utilidade do conhecimento, estudar já não faria mais sentido. Por isso, segundo a pesquisa do Datafolha, apenas 12% dos idosos participam de alguma atividade educativa. Condena-se, assim, um indivíduo à morte antecipadamente; afinal, não seria mais produtivo.
Tais sinais são emitidos por todos os lados -na semana passada, tivemos um bom exemplo deles.


Um dos mais notáveis avanços brasileiros -um dos pontos altos de toda a gestão Lula- é o ranking, divulgado na quinta-feira, de todas as escolas públicas, baseado em critérios objetivos e com metas de curto, médio e longo prazos. Parte desse índice é composta por notas de português e matemática, base para os demais aprendizados.
Pela primeira vez, temos índices de qualidade tão detalhados, expondo (o que é ótimo) os casos de sucesso e de fracasso, demandando mais dos professores, das famílias, das comunidades, inclusive dos meios de comunicação. Não podemos, porém, nos iludir: saber matemática e português é o básico dos básicos, mesmo na visão utilitária da educação. É um primeiro passo imprescindível, mas é muito pouco.
Se tudo der certo e atingirmos as metas, em 2022, teremos o padrão educacional do Reino Unido. Tente acompanhar os amargos debates dos ingleses sobre as escolas públicas (que são tão amargos quanto os dos brasileiros) para ver o tamanho do desafio.
Usufruir os benefícios sociais, culturais, econômicos e tecnológicos de uma sociedade implica muito mais do que ir bem nas provas. Implica o desenvolvimento de atitudes. Entre as principais habilidades exigidas para os profissionais estão autonomia de aprendizado, criatividade e empreendedorismo. Não por outro motivo, as empresas investem cada vez mais na formação contínua de seus funcionários.


Melhores escolas são sinônimo de distribuição de renda, crescimento econômico, inovação tecnológica, cidadãos mais atentos e por aí vai. Para a imensa maioria, isso seria o ideal -e, pragmaticamente, é mesmo o ideal, sobretudo vendo a realidade brasileira, com tanta gente que não entende o que lê.
Mas esse ainda é apenas um pedaço do valor da educação, para quem considera que a graça da aventura humana é sentir sempre o gosto da descoberta, independentemente da idade em que esteja.
Daí que envelhecer não deveria ser o fim da vida útil, mas a chance de aprender novas coisas -isso se sabe desde criança.


PS - Um dos fatos mais revoltantes do Ideb -além da mediocridade geral- é a terrível homenagem a um dos maiores educadores de nossa história. A pior escola, localizada no interior do Paraná, chama-se Monteiro Lobato, autor da frase "um país se faz com homem e livros" -um caso de quem viveu para aprender. Sugiro que, até ela melhorar, fique, provisoriamente, com o nome do prefeito ou do governador. Aliás, poderíamos fazer esse tipo de batismo em todo o país, dando o nome dos atuais governantes aos colégios com pior colocação no ranking -talvez a homenagem às avessas servisse de estímulo para que tratassem o ensino público com mais empenho, construindo menos prédios e valorizando mais os professores.
gdimen@uol.com.br

terça-feira, 25 de setembro de 2012


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Schopenhauer

O mundo como vontade e representação
Antonio Carlos Olivieri*


Talvez nenhum outro filósofo tenha exercido maior influência no mundo das artes do que o alemão Arthur Schopenhauer. O compositor Richard Wagner, por exemplo, disse ter criado uma de suas maiores óperas, "Tristão e Isolda", como reação à leitura de Schopenhauer.

Na literatura, o número de romancistas e contistas que compartilharam das idéias de Schopenhauer é imenso: os russos Tolstoi, Tcheckov e Turguêniev, os franceses Zola, Maupassant e Proust, os ingleses Hardy, Conrad e Maugham, sem falar no argentino Jorge Luís Borges e no brasileiro Machado de Assis.

Também se encontram no mesmo caso poetas como escritor de língua alemã Rilke e o inglês T. S. Eliot, além de dramaturgos como o inglês Bernard Shaw, o irlandês Samuel Beckett e o italiano Luigi Pirandello.

Mas a influência de Schopenhauer não para por aí: Friedrich Nietzsche disse ter se tornado filósofo devido à leitura de Schopenhauer, que também foi o ponto de partida da filosofia de Wittgenstein. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, reconheceu que a análise da repressão - um dos pilares da teoria psicanalítica - foi feita pioneiramente por Schopenhauer, que é com freqüência citado por Carl Gustav Jung.

Agora que tem uma breve introdução sobre Arthur Schopenhauer, que tal fazer uma pesquisa no Google para saber um pouco mais sobre seu pensamento? Traga sua contribuição e vamos juntos saber porque este pensador foi tão influente no mundo das artes.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O frio que vem de dentro

Conta-se que seis homens ficaram presos numa caverna por causa de uma
avalanche de neve.
Teriam que esperar até o amanhecer para receber socorro. Cada um deles
trazia um pouco de lenha e havia uma pequena fogueira ao redor da qual eles
se aqueciam.
Eles sabiam que se o fogo apagasse todos morreriam de frio antes que o dia
clareasse.
Chegou a hora de cada um colocar sua lenha na fogueira: era a única maneira
de poderem sobreviver.
O primeiro homem era racista. Ele olhou demoradamente para os outros cinco e
descobriu que um deles tinha a pele escura.
Então, raciocinou consigo mesmo: "Aquele negro! Jamais darei minha lenha
para aquecer um negro". E guardou-a protegendo-a dos olhares dos demais.
O segundo homem era um rico avarento. Estava ali porque esperava receber os
juros de uma dívida. Olhou ao redor e viu um homem da montanha que trazia
sua pobreza no aspecto rude do semblante e nas roupas velhas e remendadas.
Ele calculava o valor da sua lenha e, enquanto sonhava com o seu lucro,
pensou: "Eu, dar a minha lenha para aquecer um preguiçoso? Nem pensar".
O terceiro homem era negro. Seus olhos faiscavam de ressentimento. Não havia
qualquer sinal de perdão ou de resignação que o sofrimento ensina.
Seu pensamento era muito prático: "É bem provável que eu precise desta lenha
para me defender. Além disso, eu jamais daria minha lenha para salvar
aqueles que me oprimem". E guardou suas lenhas com cuidado.
O quarto homem era um pobre da montanha. Ele conhecia mais do que os outros
os caminhos, os perigos e os segredos da neve. Este pensou: "Esta nevasca
pode durar vários dias. Vou guardar minha lenha."
O quinto homem parecia alheio a tudo. Era um sonhador. Olhando fixamente
para as brasas, nem lhe passou pela cabeça oferecer a lenha que carregava.
Ele estava preocupado demais com suas próprias visões (ou alucinações?) para
pensar em ser útil.
O último homem trazia nos vincos da testa e nas palmas calosas das mãos os
sinais de uma vida de trabalho. Seu raciocínio era curto e rápido. "Esta
lenha é minha. Custou o meu trabalho. Não darei a ninguém nem mesmo o menor
dos gravetos".
Com estes pensamentos, os seis homens permaneceram imóveis. A última brasa
da fogueira se cobriu de cinzas e, finalmente apagou.
No alvorecer do dia, quando os homens do socorro chegaram à caverna
encontraram seis cadáveres congelados, cada qual segurando um feixe de
lenha.
Olhando para aquele triste quadro, o chefe da equipe de socorro disse:
"O frio que os matou não foi o frio de fora, mas o frio de dentro".



Não deixe que a friagem que vem de dentro mate você.
Abra o seu coração e ajude a aquecer aqueles que o rodeiam.
Não permita que as brasas da esperança se apaguem, nem que a fogueira do
otimismo vire cinzas.
Contribua com seu graveto de amor e aumente a chama da vida onde quer que
você esteja.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Os Ritos


Porque a religião liga humanos e divindade, porque organiza o espaço e o tempo, os seres humanos precisam garantir que a ligação e a organização se mantenham e sejam sempre propícias. Para isso são criados os ritos. Vemos então que o rito é outra característica comum a todas as religiões.
O rito é uma cerimônia em que gestos determinados, palavras determinadas, objetos determinados, pessoas determinadas e emoções determinadas adquirem o poder misterioso de presentificar o laço entre os humanos e a divindade. Para agradecer dons e benefícios, para suplicar novos dons e benefícios, para lembrar a bondade dos deuses ou para exorcizar sua cólera, caso os humanos tenham transgredido as leis sagradas, as cerimônias ritualísticas são de grande variedade. No entanto, uma vez fixada os procedimentos de um ritual, sua eficácia dependerá da repetição minuciosa perfeita do rito, tal como foi praticado na primeira vez, porque nela os próprios deuses orientaram gestos e palavras dos humanos. Um rito religioso é repetitivo em dois sentidos principais: a cerimônia deve repetir um acontecimento essencial da história sagrada (por exemplo, no cristianismo, a eucaristia ou a comunhão, que repete a Santa Ceia); e, em segundo lugar, atos, gestos, palavras, objetos devem ser sempre os mesmos, porque foram, na primeira vez, consagrados pelo próprio deus. O rito é a rememoração perene do que aconteceu numa primeira vez e que volta a acontecer, graças ao ritual que abole a distância entre o passado e o presente.
ESTUDO DIRIGIDO
-O texto abaixo do filósofo e historiador Mircea Eliade trata dos “ritos”. Leia atenciosamente o texto para em seguida responder as questões. ............................................................................................................................................................................. Cada ritual tem um modelo divino, um arquétipo; este fato é suficientemente conhecido por nós, para que possamos nos restringir ao uso de alguns exemplos apenas. "Temos de fazer o que os deuses fizeram no princípio" (Satapatha Brahmana, VII, 2, 1, 4). "Assim fizeram os deuses; assim fazem os homens"(Taittiriya Brahmana, I, 5, 9, 4). Este provérbio indiano sintetiza a teoria que fundamenta os rituais em todos os países. Podemos encontrar esta teoria entre os chamados povos primitivos, do mesmo modo como a encontramos nas culturas mais desenvolvidas. Os aborígines1 da região sudeste da Austrália, por exemplo, praticam a circuncisão2 com uma faca de pedra, porque foi assim que seus ancestrais lhes ensinaram a fazer; os negros amazulu fazem o mesmo, porque Unkulunkulu (herói civilizador) decretou em tempos idos"Que os homens sejam circuncisos, para que não sejam meninos". [...]É inútil a multiplicação dos exemplos; todos os atos religiosos são considerados como tendo sido fundados pelos deuses, pelos heróis civilizadores, ou por ancestrais míticos. [...] O sábado judeu-cristão também é uma “imitação de Deus”O descansosabatino3 reproduz o gesto primordial do Senhor, pois foi no sétimo dia da Criação que Deus "...descansou depois de toda a sua obra de Criação" (Genesis 2,2). A mensagem do Salvador é, antes de mais nada, um exemplo que exige imitação. Depois de lavar os pés de seus discípulos, Jesus lhes disse: "Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais" (João 13,15).
[...] Os rituais do casamento também contam com um modelo divino, e o matrimônio humano reproduz a hierogamia4 [...] Na Grécia, os rituais do casamento imitavam o exemplo de Zeus, unindo-se em segredo com Hera (Pausânias, II, 36, 2). [...] Todo o simbolismo paleo-oriental5 do casamento pode ser explicado por meio de modelos celestiais. Os sumérios6 celebravam a união dos elementos no dia de Ano Novo; através de todo o Oriente primitivo, o mesmo dia adquiriu sua fama não só por causa do mito da hierogamia, mas também pelos rituais de união do rei com a deusa. É no dia de Ano Novo que Ishtar deita- se com Tammuz, e o rei reproduz essa hierogamia mítica, consumando uma união ritual com a deusa (isto é, com a escrava do templo, que a representa na Terra) numa câmara secreta do templo, onde fica a cama nupcial da deusa. A união divina garante a fecundidade7 terrena; quando Ninlil deita-se com Enlil, a chuva começa a cair. A mesma fecundidade é garantida por meio da união cerimonial do rei, a dos casais na Terra, e assim por diante. O mundo é regenerado8 toda vez que a hierogamia é imitada, isto é, sempre que se consuma a união matrimonial (Mircea Eliade. “Mito do eterno retorno).

1. O que os rituais religiosos tomam como modelo?
2. Nos rituais de casamento qual acontecimento os homens pretendem imitar? 3. Que resultados espera-se atingir por meio dos rituais de casamento?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

AS RELIGIÕES E O SAGRADO



A missa no domingo, a pregação do pastor, os batuques do candomblé, a peregrinação a Meca, o sacrifício de animais ou as orações no muro das lamentações. Todos esses eventos são considerados manifestações religiosas, todos eles estão ligados a alguma religião. Mais afinal o que é uma religião? Como que atividades tão diferentes podem ser reunidas sob um único nome, isto é, religião. O que tem em comum o islamismo, o cristianismo, o judaísmo e o candomblé para serem chamados de religião? Alguns poderão dizer: é religião porque acredita em Deus! Errado! Existem as religiões politeístas que acreditam em diversos deuses. Ou seja, acreditar em Deus não é critério para definir se algo é uma religião ou não. O filósofo e historiador romeno Mircea Eliade buscou entender o que é uma religião. Ele investigou quais características em comum tem atvidades tão diferentes.
A palavra religião vem do latim: religio, formada pelo prefixo re (outra vez, de novo) e o verbo ligare (ligar, unir, vincular). A religião é um vínculo, re-liga o homem ao sagrado. Toda religião tem essa função, estabelecer um vínculo entre os homens e algo sagrado. Mas o é o sagrado? Sagrado é, pois, a qualidade excepcional – boa ou má, benéfica ou maléfica, protetora ou ameaçadora – que um ser possui e que o separa e distingue de todos os outros. O sagrado pode suscitar devoção e amor, repulsa e ódio. Esses sentimentos suscitam um outro: o respeito feito de temor. Nasce, aqui, o sentimento religioso e a experiência da religião.
A manifestação de algo sagrado é chamado por Mircea Eliade de hierofania. A manifestação do sagrado pode se dar por meio de uma pedra, uma árvore, uma montanha, uma pessoa. Na religião cristã, por exemplo, a manifestação do sagrado se dá por meio da encarnação de Deus em Jesus Cristo. Em todos esses fenômenos existe a compreensão de que algo que pertence a “uma ordem diferente” ou “a um outro mundo” se manifesta no nosso mundo profano. O profano é justamente aquilo que não é sagrado.
O espaço sagrado

Na imagem ao lado vemos a foto da mesquita de Meca, este é um lugar considerado sagrado pelos Mulçumanos. Embaixo da foto da mesquita vemos a foto de um templo hindu. Logo abaixo vemos um barracão de candomblé. O que a mesquita, o templo e o barracão têm em comum? Todos eles são lugares considerados sagrados para as suas respectivas religiões.
Toda religião é constituída por espaços sagrados, ou seja, lugares privilegiados onde o homem religioso pode entrar em contato com o sagrado. O espaço sagrado pode ser uma igreja, uma mesquita
uma sinagoga, um barracão de candomblé. No entanto, os espaços sagrados não são somente construções humanas. Existem montanhas, florestas, campos que podem ser considerados espaços sagrados. 



ESTUDO DIRIGIDO

-O texto abaixo é do livro “O sagrado e o profano” do filósofo e historiador Mircea Eliade. Leia atenciosamente o texto para em seguida responder as questões.
......................................................................................................................................................................... Para o homem religioso, o espaço não ê homogêneo: o espaço apresenta roturas, quebras; há porções de espaço qualitativamente diferentes das outras. “Não te aproximes daqui, disse o Senhor a Moisés; tira as sandálias de teus pés, porque o lugar onde te encontras é uma terra santa.” (Êxodo, 3: 5) Há, portanto, um espaço sagrado, e por conseqüência “forte”, significativo, e há outros espaços não sagrados, e por conseqüência sem estrutura nem consistência, em suma, amorfos.
[...] A fim de pôr em evidência a não homogeneidade do espaço, tal qual ela é vivida pelo homem religioso, pode-se fazer apelo a qualquer religião. Escolhamos um exemplo ao alcance de todos: uma igreja, numa cidade moderna. Para um crente, essa igreja faz parte de um espaço diferente da rua onde ela se encontra. [...] Assim acontece em numerosas religiões: o templo constitui, por assim dizer, uma “abertura” para o alto e assegura a comunicação com o mundo dos deuses.
[...] Todo espaço sagrado implica uma hierofania, uma irrupção do sagrado que tem como resultado destacar um território do meio cósmico que o envolve e o torna qualitativamente diferente. Quando, em Haran, Jacó viu em sonhos a escada que tocava os céus e pela qual os anjos subiam e desciam, e ouviu o Senhor, que dizia, no cimo: “Eu sou o Eterno, o Deus de Abraão!”, acordou tomado de temor e gritou: “Quão terrível é este lugar! Em verdade é aqui a casa de Deus: é aqui a Porta dos Céus!” Agarrou a pedra de que fizera cabeceira, erigiu a em monumento e verteu azeite sobre ela. A este lugar chamou Betel, que quer dizer “Casa de Deus” (Gênesis, 28: 1219).
[...] Quando não se manifesta sinal algum nas imediações, o homem provoca o, pratica, por exemplo, uma espécie de evocação com a ajuda de animais: são eles que mostram que lugar é suscetível de acolher o santuário ou a aldeia. Trata-se, em resumo, de uma evocação das formas ou figuras sagradas, tendo como objetivo imediato a orientação na homogeneidade do espaço. Pede se um sinal para pôr fim à tensão provocada pela relatividade e à ansiedade alimentada pela desorientação, em suma, para encontrar um ponto de apoio absoluto. Um exemplo: persegue se um animal feroz e, no lugar onde o matam, eleva se o santuário; ou então põe se em liberdade um animal doméstico – um touro, por exemplo –, procuram-no alguns dias depois e sacrificam no ali mesmo onde o encontraram. Em seguida levanta se o altar e ao redor dele constrói se a aldeia (Mircea Eliade. “O sagrado e o profano”).


ATIVIDADES

1. Explique como o homem religioso compreende o espaço.
2. Qual é a função do espaço sagrado?
3. O texto mostra dois modos diferentes de se escolher um espaço que será considerado sagrado. Explique cada um deles.